Os professores serão dispensáveis?

Em 26/10/2016, o site da BBC publicou uma matéria intitulada “University opens without teachers” que provocou, entre meus pares, dois sentimentos diferentes: um primeiro, de ansiedade, com a possível extinção da nossa profissão e um segundo, de empolgação, a partir de mais uma evidência da necessidade de repensarmos a educação superior.

Deixando de lado a preocupação com o emprego ou com a tão óbvia necessidade de mudança da educação superior, fica a pergunta mais objetiva: o trabalho de um docente realmente pode ser substituído por outra coisa?

Antes de responder a essa pergunta é importante considerar alguns fatos. Em primeiro lugar, a 42, a tal universidade sem professores, adotará dois métodos de aprendizagem bem populares entre os docentes: aprendizagem por pares (peer learning) e aprendizagem baseada em problemas. A diferença é que, nas universidades tradicionais, esses dois métodos são supervisionados por docentes. Em segundo lugar, os cursos em oferta pela 42 são cursos de projeto e desenvolvimento de software e programadores, de uma forma geral, já estão habituados a estudar sozinhos.

Agora, buscando uma resposta para a questão, podemos decompor o trabalho docente em quatro tarefas principais:

  • Planejamento do processo de aprendizagem
  • Seleção e transmissão de informações (ou da matéria)
  • Avaliação do desempenho dos alunos
  • Orientação dos alunos

Me parece que a primeira tarefa ainda é realizada na 42, mas que lá há uma expectativa de um reaproveitamento desses planejamentos, de tal forma que não precisem ser refeitos a toda hora. A segunda tarefa está cada vez mais sendo substituída pela Internet. A avaliação de desempenho de alunos também já está sendo feita em processo de grande escala, por meio de avaliações objetivas ou mesmo da avaliação por pares.

A última tarefa, porém, me parece que não pode ser facilmente substituída por alternativas. Colocar um aluno para orientar outros traz inúmeros riscos como, por exemplo, o da perda do foco nas competências que realmente devem ser desenvolvidas e o da aceitação de uma visão simplista sobre os objetos da aprendizagem. Ensinar é uma profissão e, assim como em qualquer outra, colocar um “amador” para realizá-la, certamente traz perdas.

O mundo é complexo. Qualquer das nossas ações possuem implicações técnicas, econômicas, sociais, éticas e por aí vai. Alunos, mesmo que “tecnicamente” mais experientes, podem não perceber essas implicações.

Portanto, minha resposta para a pergunta é um sólido não. Os professores (ainda) não podem ser substituídos. Pelo menos, aqueles professores que de fato dão atenção a seus alunos e cuidam a aprendizagem de cada um deles.

Então vem uma segunda pergunta: qual será o trabalho dos professores daqui para a frente?

Bem, essa questão precisa de mais tempo para ser analisada e é essa a minha expectativa neste blog: registrar aquilo que tenho observado, lido, escutado ou assistido a respeito dos rumos da educação superior e do trabalho docente.

Sem talvez nunca dar uma resposta direta ou conclusiva a essa segunda pergunta, espero trazer informações relevantes e estimular os leitores a compartilharem comigo suas opiniões e experiências sobre os temas trabalhados.

Quem sabe você já não começa dando a sua opinião sobre a universidade sem professores?


Referências:

PICKLES, Matt. University open without any teachers. BBC, 26 out. 2016. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/business-37694248>. Acesso em: 02 jan. 2017.

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