Estágios da adoção de um ambiente virtual de aprendizagem

 

Um dos grandes desafios das instituições de educação superior é preparar o seu corpo docente para um modelo educacional em que a mediação da aprendizagem é feita, em grande parte, por meio de tecnologias. Mesmo nos cursos presenciais, por exemplo, o apoio de um ambiente virtual de aprendizagem é indispensável para se ter um canal dinâmico de troca de informações entre alunos, professores e instituição, bem como para se registrar as ações realizadas por alunos e docentes durante a aprendizagem.

Um erro comum das instituições, no entanto, é achar que os professores podem mudar do modelo centrado no docente para esse novo modelo tecnológico de uma forma súbita e imposta. Existem algumas regras para conduzir os professores nessa mudança:

  1. Os professores precisam compreender as razões específicas da mudança. Dificilmente eles aceitarão que a mudança é necessária apenas porque algum gestor disse que é.
  2. Os professores precisam aprender a usar a tecnologia de uma forma orientada por tarefas. E essas tarefas precisam ser realizadas no contexto do seu trabalho.
  3. As instituições precisam levar em conta os diferentes perfis de professores, especialmente no que se refere à familiaridade com  tecnologia. Mas também é importante considerar que professores de áreas diferentes têm demandas diferentes em seus trabalhos.
  4. Os professores devem ter liberdade para descobrir as coisas (tecnologias) sem depender de outras pessoas, mas tendo orientações e ajuda quando tiverem dificuldades ou cometerem erros.

Curiosamente, essas regras são alguns dos princípios da Andragogia¹ e deveriam ser consideradas pelos próprios professores nas suas práticas de ensino.

Mas é importante também que a instituição tenha um plano de desenvolvimento docente, pois, do contrário, ela se verá retornando ao ponto de partida continuamente. Sem uma ação planejada e realmente posta em prática, dificilmente os professores serão preparados para a nova realidade.

No que se refere especificamente ao uso de um ambiente virtual de aprendizagem, o desenvolvimento de cada professor de ser feito como um processo de quatro estágios².

O primeiro estágio é o do contato, em que os professores usam o ambiente virtual de aprendizagem apenas como repositório de materiais didáticos, para entrega de atividades e para envio de avisos aos alunos. É nesse estágio que o professor experimenta o ambiente e que cria a sua relação com o mesmo. Recomenda-se o estímulo contínuo dos professores, mas ainda sem forçar uma mudança de atitude.

No segundo estágio, o professor está suscetível às mudanças. Ele passa a explorar as ferramentas do ambiente na busca da melhoria do seu trabalho. O professor já começa a ver o ambiente como sua sala de aula.

No terceiro estágio, o professor já se preocupa com a interdisciplinaridade e com a colaboração. É quando há a mudança de paradigma e o professor não se concentra mais apenas em transmitir informações, mas em construir conhecimento. A aprendizagem colaborativa é uma das suas principais estratégias.

Finalmente, no quarto estágio, o professor passa a se preocupar com uma aprendizagem socialmente situada, isto é, com a formação do cidadão dentro de um contexto social. Em outras palavras, o professor muda a sua atenção do desenvolvimento de competências isoladas (e quase independentes), previstas no plano da sua disciplina, para a preparação do aluno para se integrar à sociedade, por meio da sua profissão.

É claro que esse processo depende de a instituição confiar na capacidade seus professores. Instituições excessivamente controladoras ou burocráticas dificilmente alcançarão o quarto estágio.

Também é possível que muitas instituições ainda estejam vendo a tecnologia apenas como uma forma de alavancar os seus números. A tecnologia pode sim ajudar nesse sentido, mas, somente a partir do momento em que a preocupação com a qualidade da formação dos alunos esteja sendo atendida. Se o crescimento for a única preocupação, então dificilmente terá o envolvimento do corpo docente.


Referências:

  1. KNOWLES, Malcolm S.; Holton, Elwood F., & Swanson, Richard A. The Adult Learner: The definitive classic in adult education and human resource development. 7th ed. Amsterdam ; Boston: Elsevier, Butterworth-Heinemann, 2011.
  2. MATHEOS JR., Walter; LOPES, José J. O processo de implantação de um ambiente virtual de aprendizagem no ensino superior. TecEduc@tion – 3º Congresso e Exposição Internacional de e-Learning e Tecnologia Educacional. Outubro, 2006.

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