Tecnologias para a elaboração de materiais didáticos

Uma das grandes tendências da educação superior é o fim da aula expositiva tradicional. Isso significa buscar outra forma de transmissão de informações para os alunos e deixar a sala de aula para discussões ou atividades práticas – algo que justifique colocar dezenas de alunos no mesmo local e no mesmo momento.

Temos deixado, cada vez mais, essa transmissão de informações por conta dos materiais didáticos. Se, no passado, os professores eram necessários para assegurar o acesso e a compreensão das informações pelos alunos, hoje quase todo o conhecimento humano já disponível está na Internet e em diversos formatos, podendo ser acessado diretamente pelos alunos, geralmente de forma gratuita.

No entanto, mesmo com toda essa disponibilidade de informações na rede, as instituições, e em particular os seus professores, ainda preferem produzir seus próprios materiais. Essa preferência está associada a muitas questões, sendo algumas culturais, outras mercadológicas e ainda outras metodológicas. Assim, mais do que questionar a preferência, cabe orientar os docentes para que produzam corretamente seus materiais.

Além de se preocuparem com o conteúdo a ser apresentado no material didático, os professores devem agora se preocupar com questões inéditas para eles, como o custo de produção do material, o número de pessoas que pode alcançar e a sua longevidade. Uma aula tradicional depende basicamente do tempo do professor em sala, mas a criação de um material didático alternativo pode exigir o trabalho de vários outros profissionais, bem como demandar infraestruturas de produção e distribuição específicas.

Na tentativa de organizar essas preocupações, Tony Bates propôs um modelo chamado A.C.T.I.O.N.S. para escolha de tecnologias usadas na produção de materiais didáticos. No seu modelo, cada letra indicava uma preocupação:

  • Access (acesso) – Onde os alunos aprenderão?
    A preocupação de Tony Bates na época era mais associada ao local físico: em casa, no trabalho, na escola ou em um centro comunitário. No entanto, hoje podemos estender essa preocupação à possibilidade acesso aos dispositivos necessários para acompanhar o material didático (computadores, smartphones, tablets, óculos de realidade virtual, …), bem como à acessibilidade propriamente dita, isto é, à capacidade de uso por pessoas com necessidades especiais.
  • Costs (custos) – Quais os custos de produção e uso?
    Aqui devem ser considerados tanto os custos da instituição quanto os custos dos alunos que cada tecnologia demanda para a produção e uso de materiais didáticos. A instituição paga por toda a produção do material, o que inclui não só o docente como também os outros profissionais de gravação, edição, revisão, etc.  e os materiais necessários à produção. Esses tipos de custo se enquadram na categoria de custos fixos (que não dependem da quantidade de alunos) e, geralmente, devem ser amortizados durante alguns anos. Mas a instituição também deve arcar com os custos de distribuição, o que pode incluir servidores de vídeo, espaços na biblioteca, impressões, etc. Esse tipo de custo é variável (depende da quantidade de alunos). Finalmente, os custos dos alunos, como o acesso a uma Internet de alta velocidade, impressão de cópias ou até mesmo o deslocamento à biblioteca, também devem ser considerados.
  • Teaching functions (funções de ensino) – Quais os requisitos de ensino?
    Apesar no nome um pouco estranho, a preocupação de Tony Bates aqui era de que a tecnologia ou mídia escolhida permitisse atender às necessidades de apresentação de conteúdo e de aprendizagem. Em outras palavras, a tecnologia deveria permitir se alcançar os objetivos de aprendizagem.
  • Interaction and user-friendliness (interação e usabilidade) – Que tipos de interação são possíveis e qual a facilidade de uso?
    O foco de um material didático deve ser transmitir informações ao aluno e levá-lo a refletir sobre essas informações. Cada minuto que o aluno gasta tentando aprender como usar o material didático representa um minuto a menos no estudo desse material didático. A tecnologia que suporta o uso do material deve ser intuitiva e dispensar treinamento.
  • Organisation (organização) – Que mudanças organizacionais são necessárias?
    A escolha de uma tecnologia deve levar em conta o esforço necessário a sua adoção na organização. Se for uma tecnologia já adotada, então o esforço é menor. Se é algo inédito, os esforços para garantir os investimentos, para sua implantação e para treinar professores e funcionários serão mais significativos.
  • Novelty (novidade) – Qual a tendência dessa tecnologia estimular financiamentos e inovações?
    Uma tecnologia nova é, certamente, atraente. No entanto, decidir adotar uma tecnologia nova é um risco. Assim, é importante considerarmos o tanto que essa tecnologia tem atraído investimentos e inovações. Não são raros os exemplos de tecnologias caras que se tornaram obsoletas antes de alcançar uso em larga escala.
  • Speed (velocidade) – Quão rápido é atualizar materiais e produzir novos cursos?
    As organizações não podem perder de vista a produtividade. Assim, uma boa tecnologia deve permitir que os materiais sejam atualizados sempre que necessário, de forma rápida e eficiente. Da mesma forma, deve ser possível produzir novos cursos (isto é, novos materiais) de forma ágil.

É claro que, na medida em que as tecnologias educacionais se multiplicam, novos critérios devem ser considerados, mas, mesmo assim, o modelo de Tony Bates, criado lá no início da educação a distância, ainda é um bom ponto de partida.


Referências:

BATES, A.W. Application of new technologies (including computers) in distance education: implication for the training of distance educators. Commonwealth of learning, Vancouver, British Columbia, 02 a 06 abr. 1990.

1 Comentário

  1. Queria ver um modelo que considera o fator humano. A mentalidade de evolução me parece essencial para que o professor se adapte a esta nova realidade de produção de materiais.

    Hoje os docentes e escolas dividem espaço com materiais de grande qualidade que são facilmente acessíveis o que salienta ainda mais a necessidade de adequação para manutenção de relevância. Aqueles que insistem em modelos mais tradicionais terão seu espaço, mas imagino que será cada vez mais reduzido.

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