Princípios da aprendizagem

Em seu clássico livro Theories of Learning escrito com Gordon Bower, de 1966, Ernest Hilgard identificou 20 princípios da aprendizagem que ele considerava universalmente aceitos sobre a aprendizagem. Esses princípios se enquadram em três famílias de teorias: Teoria Estímulo Resposta, Teoria Cognitiva e Teoria da Motivação e da Personalidade.

O aspecto mais interessante nessa lista de princípios, que tem mais de 50 anos, está na sua direta relação com o que está sendo atualmente proposto para a reforma da educação superior. Metodologias ativas, aprendizagem adaptativa, aprendizagem personalizada e inúmeros outras ideias podem encontrar apoio nesses princípios. Obviamente, não estou sugerindo, aqui, a existência de qualquer coincidência, mas apenas observando que os argumentos contrários às inovações na educação não fazem qualquer sentido.

Os vinte princípios de Hilgard (com redação ligeiramente alterada) são apresentados abaixo. A interpretação deles deixo para você.

1. Teoria Estímulo Resposta

  • O aluno deve ser um participante ativo do processo de aprendizagem, em vez de um mero ouvinte ou espectador passivo.
  • A frequência de repetição ainda é importante na aquisição de habilidades e na retenção por excesso de aprendizagem.
  • O reforço é importante; isto é, as respostas desejáveis ​​e corretas das repetições devem ser recompensadas.
  • A generalização e a discriminação sugerem a importância da prática em diversos contextos, de tal forma que a aprendizagem se torne (ou permaneça) apropriada para uma variedade de estímulos mais ampla (ou mais restrita).
  • O comportamento inovador é importante e pode ser aprimorado através de técnicas como a imitação de modelos, oferta de sugestões e dicas e da modelagem.
  • O impulso é importante na aprendizagem, mas nem todos os motivos sociais pessoais podem ser reduzidos ao princípio do impulso pela privação.
  • Conflitos e frustrações surgem inevitavelmente no processo de aprender temas difíceis e em situações sociais em que motivos irrelevantes podem surgir. Portanto, devemos reconhecer e apoiar a solução desses conflitos e frustrações.

2. Teoria cognitiva

  • As características dos problemas dadas aos alunos são condições importantes para a compreensão desses problemas. Portanto, um problema de aprendizagem deve ser estruturado e bem apresentado para que possam ser resolvidos pelos alunos.
  • A organização do conhecimento deve ser uma preocupação essencial do professor, de modo que o avanço do simples para o complexo não seja de partes desconectadas e sem sentido para um todo mais significativo, mas sim de um todo simples para um todo mais complexo.
  • A aprendizagem é culturalmente relativa, e tanto a cultura mais ampla como a subcultura a que o aluno pertence podem afetar sua aprendizagem.
  • O feedback cognitivo confirma o conhecimento correto e corrige o aprendizado falho. O aluno tenta algo provisoriamente e aceita ou rejeita o que faz com base em suas consequências. Este é, naturalmente, o equivalente cognitivo do reforço na teoria estimulo resposta, mas a teoria cognitiva tende a colocar mais ênfase em um tipo de teste de hipóteses através do feedback.
  • A definição de metas pelo aluno é importante, pois a motivação para a aprendizagem e para os sucessos e falhas pessoais determinam como os indivíduos estabelecem metas futuras.
  • O pensamento divergente, que leva à resolução inventiva de problemas ou à criação de produtos novos e valiosos, deve ser estimulado juntamente com o pensamento convergente, que leva a respostas logicamente corretas.

3. Teoria da Motivação e da Personalidade

  • As capacidades dos alunos são importantes e devem ser elaboradas estratégias para alunos mais lentos e alunos mais rápidos, bem como para aqueles com necessidades especiais.
  • O desenvolvimento pós-natal pode ser tão importante como os determinantes hereditários e congênitos de habilidades e interesses. Portanto, o aprendiz deve ser entendido em termos das influências que moldaram seu desenvolvimento.
  • A aprendizagem é culturalmente relativa, e tanto a cultura mais ampla como a subcultura a que o aluno pertence podem afetar sua aprendizagem (Esse princípio também aparece na Teoria Cognitiva. Infelizmente não tive acesso à obra original para assegurar que a repetição não seja um mero erro de edição).
  • O nível de ansiedade de cada aluno pode determinar os efeitos benéficos ou prejudiciais de certos tipos de incentivos para aprender.
  • A mesma situação objetiva pode estimular os motivos apropriados de um aluno e não de outro, como por exemplo, no contraste entre aqueles motivados por uma afiliação e aqueles motivados pelos resultados.
  • A organização de motivos e valores dentro dos indivíduos é relevante. Alguns objetivos de longo prazo afetam as atividades de curto prazo. Assim, os estudantes universitários podem se desempenhar melhor em cursos percebidos como relevantes para suas graduações do que nos percebidos como irrelevantes para elas.
  • A atmosfera de grupo de aprendizagem (competição versus cooperação, autoritarismo versus democracia, isolamento individual versus identificação de grupo) afetará a satisfação com a aprendizagem, bem como os produtos dela.

Ao mesmo tempo em que é reconfortante encontrar apoio para as inovações em um clássico das teorias de aprendizagem, é importante considerar que muitas outras coisas já mudaram e que a lista acima não deve ser tomada como uma referência completa e suficiente para o processo de ensino.


Referências:

  1. HILGARD, Ernest R.; GORDON H. Bower. 1966. Theories of learning. New York: Appleton-Century-Crofts, 1966.

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *