Precisamos de tantos professores?

No início dos anos 1900, nenhum fazendeiro norte-americano imaginava que, dali pra frente, cerca de 95% dos trabalhadores das fazendas seriam substituídos por máquinas¹. No entanto, essa redução de empregos não resultou em uma crise no abastecimento das famílias. Pelo contrário, a produção das fazendas aumentou consideravelmente.

De forma semelhante, ninguém sabe dizer o que vai acontecer com os 3,5 milhões de caminhoneiros dos Estados Unidos, quando os caminhões se tornarem autônomos, em alguns poucos anos³. Talvez já até tenha acontecido quando você estiver lendo este texto.

Esses dois exemplos tratam de um importante aspecto de qualquer atividade econômica: a produtividade. Porém, a maioria dos trabalhos possuem dois lados (trabalho e capital; cérebro e músculos; criatividade e repetição; domínio técnico e julgamento intuitivo; transpiração e inspiração; normas e julgamento) igualmente importantes e as melhorias em um lado não dispensam as melhorias no outro¹. Se a tecnologia permite o aumento da produtividade, então todos os outros aspectos do trabalho também devem ser melhorados.

Uma atividade econômica funciona como uma corrente¹. Se alguns elos dessa corrente são fortalecidos, então os elos restantes também precisam ser fortalecidos para que a corrente realmente aumente sua força. Um único elo fraco torna toda a corrente fraca. Em outras palavras, uma atividade só aumenta seu valor econômico se todas as suas tarefas melhorarem. Se umas tarefas são melhoradas por meio da tecnologia, outras devem ser melhoradas por meio do desenvolvimento dos profissionais que as executam. Por exemplo, quando as máquinas de autoatendimento bancário surgiram, os bancários passaram a exercer outros papéis, como cuidar do relacionamento com os clientes.

A tecnologia deve ser vista como algo que facilita o trabalho das pessoas e não como algo que as substitui.

Isso não significa, porém, que toda a massa de trabalhadores é aproveitada. Alguns deles podem não ser capazes de exercer as novas funções, pode não haver demanda suficiente para todos, como no caso da agricultura norte-americana, ou, ainda, o excesso de oferta de força de trabalho pode derrubar os salários¹. Por outro lado, o número de bancários nos Estados Unidos cresceu, mesmo depois do surgimento das máquinas de autoatendimento, porque o número de agências cresceu. Há menos profissionais por agência, mas um número muito maior de agências espalhadas pelo país.

Um outro problema é que a tecnologia tem levado nossa sociedade a se tornar mais estratificada¹. Há, hoje, mais empregos de baixa complexidade e mais empregos de alta complexidade (e salários), mas o número de empregos de média complexidade reduziu em relação ao passado.

Ainda há mais uma para não haver a extinção do trabalho por causa das tecnologias. Os humanos nunca acham que algo está bom o suficiente². Estamos sempre inventando novos produtos, tendo novas ideias, criando novos serviços. Quando a tecnologia nos libera de alguma coisa, buscamos outra para fazer.

A tecnologia elimina empregos, não trabalho.
— Harold R. Bowen¹

A partir daqui, de forma especulativa, podemos imaginar que algo semelhante acontecerá com o trabalho docente. A tecnologia nos permitirá ganhar bastante produtividade, como na transmissão de informações aos alunos por meio de vídeos e textos online e na identificação do perfil dos alunos por meio da análise dos dados da aprendizagem. Por outro lado, nos exigirá repensar nosso papel, para que executemos tarefas mais nobres como estimular e orientar os alunos. Da mesma forma que no caso dos bancários, devemos nos concentrar mais em relacionamento do que em produtividade (deixando esta para a tecnologia).

Mas a pergunta do título deste texto era: precisamos de tantos professores? Sim, pois, se de um lado precisaremos de menos professores para cuidar de um número grande de alunos, do outro temos aquela tal massa de trabalhadores afetada pela tecnologia (como os caminhoneiros norte-americanos) que precisará de uma nova qualificação profissional. Além disso, as mudanças estão cada vez mais rápidas, levando as pessoas à constante necessidade de atualização. Mais alunos, mais professores (que se adaptem às mudanças).


Referências:

  1. AUTOR, David. Why are there still so many jobs? The history and future of workplace automation. Journal of Economic Perspectives, v. 29, n. 3, 2015, p. 3-30.
  2. AUTOR, David (29 set. 2016). Why are there still so many jobs? [Video]. TED, 2016. Disponível em: <http://www.ted.com/talks/david_autor_why_are_there_still_so_many_jobs>. Acesso em: 03 jan. 2017.
  3. BRUFF, Derek. Episode 1: George Siemens. Leading Lines, 2016. Disponível em: <http://leadinglinespod.com/episode-one/>. Acesso em: 04 jan. 2017.

Os professores serão dispensáveis?

Em 26/10/2016, o site da BBC publicou uma matéria intitulada “University opens without teachers” que provocou, entre meus pares, dois sentimentos diferentes: um primeiro, de ansiedade, com a possível extinção da nossa profissão e um segundo, de empolgação, a partir de mais uma evidência da necessidade de repensarmos a educação superior.

Deixando de lado a preocupação com o emprego ou com a tão óbvia necessidade de mudança da educação superior, fica a pergunta mais objetiva: o trabalho de um docente realmente pode ser substituído por outra coisa?

Antes de responder a essa pergunta é importante considerar alguns fatos. Em primeiro lugar, a 42, a tal universidade sem professores, adotará dois métodos de aprendizagem bem populares entre os docentes: aprendizagem por pares (peer learning) e aprendizagem baseada em problemas. A diferença é que, nas universidades tradicionais, esses dois métodos são supervisionados por docentes. Em segundo lugar, os cursos em oferta pela 42 são cursos de projeto e desenvolvimento de software e programadores, de uma forma geral, já estão habituados a estudar sozinhos.

Agora, buscando uma resposta para a questão, podemos decompor o trabalho docente em quatro tarefas principais:

  • Planejamento do processo de aprendizagem
  • Seleção e transmissão de informações (ou da matéria)
  • Avaliação do desempenho dos alunos
  • Orientação dos alunos

Me parece que a primeira tarefa ainda é realizada na 42, mas que lá há uma expectativa de um reaproveitamento desses planejamentos, de tal forma que não precisem ser refeitos a toda hora. A segunda tarefa está cada vez mais sendo substituída pela Internet. A avaliação de desempenho de alunos também já está sendo feita em processo de grande escala, por meio de avaliações objetivas ou mesmo da avaliação por pares.

A última tarefa, porém, me parece que não pode ser facilmente substituída por alternativas. Colocar um aluno para orientar outros traz inúmeros riscos como, por exemplo, o da perda do foco nas competências que realmente devem ser desenvolvidas e o da aceitação de uma visão simplista sobre os objetos da aprendizagem. Ensinar é uma profissão e, assim como em qualquer outra, colocar um “amador” para realizá-la, certamente traz perdas.

O mundo é complexo. Qualquer das nossas ações possuem implicações técnicas, econômicas, sociais, éticas e por aí vai. Alunos, mesmo que “tecnicamente” mais experientes, podem não perceber essas implicações.

Portanto, minha resposta para a pergunta é um sólido não. Os professores (ainda) não podem ser substituídos. Pelo menos, aqueles professores que de fato dão atenção a seus alunos e cuidam a aprendizagem de cada um deles.

Então vem uma segunda pergunta: qual será o trabalho dos professores daqui para a frente?

Bem, essa questão precisa de mais tempo para ser analisada e é essa a minha expectativa neste blog: registrar aquilo que tenho observado, lido, escutado ou assistido a respeito dos rumos da educação superior e do trabalho docente.

Sem talvez nunca dar uma resposta direta ou conclusiva a essa segunda pergunta, espero trazer informações relevantes e estimular os leitores a compartilharem comigo suas opiniões e experiências sobre os temas trabalhados.

Quem sabe você já não começa dando a sua opinião sobre a universidade sem professores?


Referências:

PICKLES, Matt. University open without any teachers. BBC, 26 out. 2016. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/business-37694248>. Acesso em: 02 jan. 2017.